Pintar a China Agora – Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (2013-2014)

Curadoria e texto de Luiz Camillo Osorio

 

Painting China Now at Museum of Modern Art in Rio de Janeiro [MAM Rio] (December 7, 2013 – February 10, 2014). By Ondrej Brody and Kristofer Paetau: a collection of thirty oil paintings produced in China, depicting violence by the Chinese government upon their citizens.

 

Nesta apresentação da obra Pintar a China Agora (Painting China Now) os artistas usaram o texto do curador da exposição, Luiz Camillo Osorio, para criar um ‘layout’ composto pelo texto do curador e das 30 pinturas encomendadas na China. Agradecemos ao amigo e artista Rubens Pileggi pelas fotos documentando a exposição no MAM.

Ver também o eBook de artista feito em paralelo à exposição no MAM Rio:
http://brodypaetau.com/books/painting-china-now-artbook/pt

Para ver uma outra apresentação da mesma obra:
http://brodypaetau.com/recent-works/painting-china-now

Para ver outros trabalhos produzidos na China pelos artistas:
http://brodypaetau.com/recent-works/made-in-china

 

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A obra Pintar a China agora, da dupla de artistas checo-finlandesa Brody e Paetau, lida com um tema incômodo, mas necessário: a perseguição política e a tortura. A dificuldade é como fazer destas imagens algo mais do que mera denúncia. Não que ela não seja necessária, mas acrescentar-lhe camadas críticas dá à estratégia artística uma complexidade e uma intensidade importantes. O processo de criação destas imagens faz atravessar pelo documento político uma camada nova de política, que desloca e revela formas de produção, de circulação e de visibilidade das imagens em uma China capitalista e fechada ao dissenso.

 

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Em 1989, o mundo dividiu-se entre a comemoração pela queda do muro de Berlim e o luto pelo massacre da praça da Paz Celestial em Pequim. Definiram-se ali dois caminhos distintos para o antigo mundo comunista: um focado na liberalização democrática (Europa do Leste); o outro, na pujança capitalista (China). Infelizmente, as atenções parecem voltadas para o segundo, o “bem-sucedido”. A China é um gigante assustador – com PIB e censura crescentes. Como lidar com esse império hoje? Que imagem fazemos dela e como lidar com suas contradições?

 

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As pequenas pinturas apresentadas exploram essas contradições através do uso dado às imagens. Contradição que se explicita pela combinação do grotesco com o kitsch. São conhecidos os ateliês chineses onde pintores fazem cópias de quadros do cânone ocidental. A reprodução fiel e adocicada desses copistas sempre foi o lugar do consenso. Eles trocam aqui de lado, assumem o desconforto diante do que não deve ser visto. A dificuldade de todos nós, saudável, é claro, de ver o terrível é elevada à última potência. O kitsch a serviço do dissenso. O incômodo, o intragável, servido com aparência de coisa trivial.

 

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A estratégia dos artistas Ondrej Brody e Kristofer Paetau explora também as idiossincrasias chinesas. Tiveram acesso a fotografias de tortura contra dissidentes na China. Entraram em contato com vinte ateliês de reprodução para copiá-las seguindo o padrão normal das reproduções. Só dois aceitaram fazer as cópias. Parte delas está aqui presente; as fotografias (também) pintam a China hoje. Perversão da norma política: copiar o proibido. Perversão da norma artística: potencializar a cópia. Perversão da norma da representação: dissociar forma e conteúdo.

 

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As imagens foram encontradas em um site americano sobre o grupo espiritual Falun Dafa, perseguido na China por suas práticas espirituais e seu rápido crescimento e já conta com setenta milhões de adeptos desde sua criação no começo dos anos 1990. Segundo os artistas, três foram os objetivos na realização desse projeto: 1) denunciar os crimes políticos no campo da arte (ab)usando dos meios comerciais de produção de pinturas na China e (ab)usando da liberdade e da linguagem da arte visual que pretende deixar as obras falarem por si mesmas; 2) desafiar as próprias empresas chinesas de pinturas comerciais (capitalismo contra ideologia comunista); 3) criticar o mundo da arte em plena euforia com o mercado chinês – o  exotismo e o desejo de os galeristas conquistarem o mercado de colecionadores chineses.

 

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Pintar a China agora é não saber o que se está vendo; é a dificuldade de reconhecer-se no que é dado a ver; é a pintura do outro pelo outro. Brody e Paetau, corpos torturados, estética kitsch, copistas chineses. É na composição desses elementos heterogêneos que encontramos o inquietante. Mais do que denúncia é a ferida traumática do que não pode ser naturalizado. Recado final ao nosso visitante: desculpem-nos pelo incômodo, o mundo não está para amadores.

Luiz Camillo Osorio

 

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P.S.
A estratégia crítica das obras de Brody e Paetau poderia ser descrita como “homeopática”, no sentido de: similia similibus curantur (os semelhantes curam-se pelos semelhantes): a obra reproduz aquilo mesmo que ela pretende questionar e criticar.

 

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9 Responses to “ Pintar a China Agora – Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (2013-2014) ”


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