A Prefeitura do Rio/Cultura apresenta:

Cordel da Arte Contemporânea Brasileira de Kristofer Paetau

Curadoria Marta Mestre

O artista finlandes Kristofer Paetau lança o convite ao cordelista Isael de Carvalho, e apresenta-nos, através da rima popular, os elementos da “família” da arte contemporânea brasileira: desde Lygia Clark a “mãe experimental” até ao Neto (Ernesto) bem sucedido. A narrativa é cantada pelo repentista Miguel Bezerra no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, cruzando culturas que nos habituamos a ver separadas.

Abertura 06.12.2012 das 20h às 22h
Exposição 07.12.2012 – 22.12.2012
De quarta a domingo das 14h às 22h
Entrada Franca
Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto
Rua Humaitá, 163
Humaitá, Rio de Janeiro CEP 22261-000
T (21) 2535-3846
http://entresergioporto.com

Marta Mestre
curadora
M +55 21 83280940
e-mail: mestre.marta(at)gmail.com

O Cordel de Kristofer Paetau

Após o incêndio de 1978 que destruiu boa parte das instalações e do acervo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-Rio), o crítico de arte Mário Pedrosa imaginou o “Museu das Origens”, que segundo ele, deveria ser composto por cinco museus interligados: Museu do Índio, Museu de Arte Virgem (Inconsciente),  Museu de Arte Moderna, Museu de Arte Negra e Museu de Artes Populares.
Tratava-se, no final dos anos 70, de realizar um acerto histórico que a arte moderna no Brasil até então não fizera nos seus museus, e que passava por incorporar as “margens” e as “periferias” enquanto estéticas de corpo inteiro, na narrativa da arte moderna. Esta releitura foi fundamental para a derrocada da disciplina da História tal como tradicionalmente a conhecemos, abrindo caminho à multiplicidade de discursos fragmentados que traduzem a nossa experiência contemporânea.
Se a proposta de Pedrosa tivesse sido realizada, hoje ao subirmos as belas escadarias do MAM-Rio projetadas pelo arquiteto Eduardo A. Reidy, chegaríamos ao piso superior e certamente poderíamos ver esse jogo de avanços e recuos, de seduções e de divórcios que desde muito cedo se deu entre aquilo a que chamamos “cultura erudita” e arte dos “não-artistas”, na qual também se inserem as culturas populares.
A proposta não foi adiante, mas a reflexão crítica mantém-se pertinente. A sua ideia de rasurar hierarquias e fundar diálogos abriu o nosso olhar a novas categorias estéticas, objetos, gestos e imagens considerados até então interditos no mundo da arte.
Ainda assim, e conquistadas muitas batalhas importantes não temos a guerra ganha. É comum a sensação de esgotamento da produção artística contemporânea, e face a essa situação generalizada é necessário dar respostas que possibilitem a oxigenação dos velhos discursos. Curiosamente as produções dos artistas naive, populares, alienados têm vindo a suscitar um interesse cada vez maior, neste processo.
Muito nos distancia do modo como as vanguardas assimilaram os “velhos” primitivos. Na verdade, já não estamos a olhar a arte dos alienados da forma que Hans Prinzhorn o fez, nem procurando nas cores populares novidades para a paleta modernista. Aquilo que, julgo, ainda se processa neste vai-e-vem incessante é que existem possibilidades de expansão da arte dentro desta troca de olhares.
O trabalho de Kristofer Paetau nesta exposição é arguto ao apontar alguns questionamentos. Uma vez mais tira-nos da rede onde estávamos tranquilamente a descansar, com fina ironia e sarcasmo.
Não é a primeira vez que aborda o objeto “arte”, “mercado” ou “história”, bem pelo contrário. Conjuntamente com Ondrej Brody, tem vindo a constituir um conjunto de utensílios críticos que vale a pena revisitar.
“Cordel de Arte Contemporânea Brasileira” é o seu último trabalho, desta vez a solo, mas fruto de uma rede de colaborações e parcerias significativas.
O “cordel” é um gênero literário popular de rima muito disseminado nas feiras do Nordeste do Brasil, onde os cordelistas se apresentam com as suas músicas e os seus folhetos, satirizando as mais diversas temáticas, do quotidiano à política internacional.
Para a realização deste trabalho Paetau convidou Isael de Carvalho, autor de famosos cordéis na Feira de S. Cristovão (Rio de Janeiro), para juntos criarem um “guião” sobre 5 artistas fundamentais da arte brasileira: L. Clark, H. Oiticica, N. Leirner, A. Barrio, Cildo Meireles, Tunga e Ernesto Neto. Miguel Bezerra é o repentista que dá a voz à ação bem-humorada destes “personagens”, cujo vídeo se desenrola no MAM-Rio, importante museu que tem nas suas coleções trabalhos dos artistas brasileiros referidos.
A narrativa cumpre, na precisão, os códigos da métrica e da rima do cordel, e denota que a sua construção foi fruto de um estudo da matéria.
De toda a sequência uma conexão nos fica registrada. Miguel Bezerra dentro do MAM-Rio a cantar Hélio Oiticica, o “pai heróico”, que na mostra Opinião 65 (1965) foi proibido de entrar no museu conjuntamente com os passistas da escola de samba da Mangueira. Uma conexão que revela um paradoxo. Por um lado, as condições de possibilidade e de expansão da arte, no caso através da intertextualidade e do uso da tecnologia. Por outro, que não deixamos de ser “modernos”, no jogo de apropriações e divórcios que ainda se dá entre diferentes expressões culturais.
Dos impasses vivemos.

Marta Mestre

 

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